SENTA, QUE LÁ VEM HISTÓRIA.
Neste texto, você vai aprender o que é um técnico vencedor e como o destino pode consertar as coisas.
Oswaldo Brandão, já falecido, foi o técnico mais campeão pelos grandes times de São Paulo. Mais tarde, foi o técnico do Corinthians em 77 naquela final contra a Ponte Preta. Os jogadores o chamavam de paizão. Ele batia de cinta nos atletas que cometiam erros. Simples, trabalhador, correto, espírita convicto. Batemos longos papos, ou melhor, ele falava e eu ficava de boca aberta , admirado.
Pois bem, duvido que mais que 20 pessoas saibam desta história. O jornal A Gazeta Esportiva instituiu na década de 50 a Taça dos Invictos. Depois de indas e vindas ela ficou com o Corinthians com 24 jogos sem perder. Era difícil. Iniciada uma nova série, o Corinthians chega aos 24 e precisava não perder a próxima partida, que era justamente contra o Santos de Pelé para ficar com a Taça em definitivo.
Jogo no Pacaembu, em 3/11/1957. Os corintianos concentravam-se numa pequena chácara no bairro do Tremembé. Brandão não ficava na concentração. Na noite da véspera alguns atletas jogavam baralho. Muitos fumavam. Idário, o”espanhol”, um guerreiro lateral direito, estava no carteado. O cinzeiro a seu lado direito estava cheio e atentos ao jogo, ninguém percebeu que colocaram uma bombinha por debaixo das cinzas. Era uma bombinha grande, gorda, de 5 cruzeiros. Idário vai apagar o cigarro e a bomba explode, ferindo gravemente a mão de Idário. Em pouco tempo chega o médico ( Dr. Sérgio Blumer Bastos), lava a ferida , faz múltiplas suturas e afasta o jogador da partida. Logo descobriram o autor. Brandão é chamado. Informam o acontecido e ele reune a turma na sala de estar. “Quem fez isso”, pergunta. Silêncio total. Olha para Cláudio , o capitão ( Cláudio Cristóvão Pinho, o maior artilheiro da história do Corinthians). “Capita, quem fez isso!!!”. Cláudio responde : ” Mestre, eu não vou entregar companheiro nenhum”. Calmo, Brandão se levanta, olha para todos e diz: ” Vocês são como uns filhos para mim e o pai está decepcionado. Amanhã, eu não dirijo vocês, vou ficar nas numeradas, mas o time está escalado, no lugar do Idário, vai jogar quem colocou a bombinha no cinzeiro”. Sua inteligência e sagacidade, foi espetacular. Voltou para casa e dormiu.
Dia seguinte, Pacaembu lotado ( mais de 800 mil cruzeiros de renda), o locutor do estádio fala a escalação do Corinthians : Gilmar, Olavo e Oreco; Paulo, Goiano e Walmir; Cláudio, Luizinho, Índio, Rafael e Bouita. Todo mundo pensou que o Locutor se enganara. Brandão, não. E só então soube a autoria daquela brincadeira de mau gosto. Paulo era um centrovante, raçudo, forte, carrancudo, reserva de Baltazar e de Índio. Não sabia jogar fora dessa posição. Limitou-se a marcar, lutar, fazer faltas e por a bola pela lateral.O Santos tinha Zito, Pagão, Pelé, Dorval, Tite… O primeiro tempo terminou 2×2 ( Boquita, Dorval, Pelé e Goiano). Aos 5′ do 2º tempo Pelé faz 3×2 para o Santos. O Corinthians entra em desespero. Para piorar, começa a cair uma chuva torrencial e o campo fica quase que alagado. Quase ao final, o Santos recua para garantir o resultado e estragar a festa. 43 minutos e Paulo pega uma bola na direita, na intermediária no gol de entrada e ninguém vem marcá-lo. Ele não sabia o que fazer. A torcida começa uma gritaria desesperada. Paulo fica nervoso e dá um violento bico na bola, ela bate numa poça d’agua já na grande área e vai para o fundo do gol de Laércio : 3×3. Logo depois, Juan Brossi, o árbitro argentino, encerra a partida. O delírio era tanto que parecia que o Pacaembu viria a baixo. Nas numeradas, torcedores chamavam Brandão de gênio. Na verdade, o destino caprichoso e corintiano, fez em silêncio o conserto do estrago daquela maldita bombinha. A Taça dos Invictos ficou em definitivo com o Corinthians e hoje mora lá no Museu do Parque São Jorge.
LEMBRO-ME COMO SE FOSSE HOJE. EU E PAPAI ( que saudades!), ABRAÇADOS E ENXARCADOS, PULANDO COMO LOUCOS NUMA DAS ESCADAS DAS ARQUIBANCADAS. NO DIA SEGUINTE, COM FESTA ,A TAÇA FOI ENTREGUE AO CORINTHIANS NA SEDE DO JORNAL, NA AV. CÁSPER LÍBERO, QUASE ESQUINA COM A AV. IPIRANGA. E O CORTEJO, COMO ERA TRADIÇÃO FOI A PÉ ATÉ O PARQUE SÃO JORGE, PELA RANGEL PESTANA E CELSO GARCIA. AGUENTAMOS FIRME A CAMINHADA. MAS TAMBÉM, EU ERA BEM MAIS MOÇO.

