Cabeceio: o perigo invisível do futebol
Freqüência dos choques de cabeças é similar ao do futebol americano e hóquei, e o cabeceio na bola pode causar lesão cerebral. Há quem defenda o uso dos capacetes.
Jornalista responsável Osmar de Oliveira / William Correia
Como boa parte dos finais de semana, os dias 6 e 7 de outubro ficaram marcados por estarem repletos de futebol. Porém, em duas das partidas, curiosamente envolvendo somente times paulistas, não foi somente o resultado que chamou atenção. No domingo, pelo Campeonato Brasileiro, São Paulo e Corinthians empatavam sem gols quando uma cena preocupou todos os participantes e espectadores: após cobrança de escanteio, o alvinegro Carlão chocou sua cabeça contra o tricolor Richarlyson e ficou desacordado por minutos, inclusive sendo levado por uma ambulância a um hospital próximo ao Morumbi.
No dia anterior, pela Série B, a Ponte Preta vencia o São Caetano por 1 a 0 no momento em que o zagueiro azulino Kleber participou de disputa de cabeça com Zacarias e caiu inconsciente, em situação muito semelhante ao do corintiano Carlão. Apesar dos placares terem ganhado as manchetes, o real perigo que o futebol apresenta em jogadas como essa voltou à pauta.
Um fato similar, ocorrido menos de um mês antes, já havia acendido o sinal de alerta nas bolas alçadas. Durante a vitória do Atlético-PR sobre o Palmeiras, pelo brasileiro, o meia rubro-negro Ferreira levou a pior em disputa pelo alto com o zagueiro alviverde Gustavo. No lance, ambos foram ao chão e foram substituídos, mas o jogador da equipe curitibana também permaneceu inconsciente por alguns instantes. Assim como Carlão e Kleber, recobrou a consciência pouco depois. O susto, no entanto, ainda estava presente.
Os casos de Ferreira, Kleber e Carlão não foram os primeiros e provavelmente não serão os últimos a alertar sobre os riscos que o futebol apresenta em choques de cabeça. Na final da Copa América de 2004, a vitória do Brasil nos pênaltis sobre a Argentina fez com que um episódio de grande importância clinica passasse quase desapercebido. Ainda no primeiro tempo, o argentino Ayala “cabeceou” o zagueiro Luisão. O próprio adversário se preocupou, mas o brasileiro continuou em campo e ainda marcou um gol, de cabeça, antes de sair no intervalo e seguir para ser examinado em um hospital. Na época, especialistas condenaram a manutenção do jogador na partida.
A apreensão resultada nos lances, agora somada com a proximidade dos ocorridos, corrobora estudos antigos que apontam o susto dessas disputas aéreas como algo não tão raro como parece. Em pesquisa realizada no Canadá, detectou-se que de 2% a 3% das contusões no futebol são geradas por choques na cabeça. Número idêntico ao do futebol americano, esporte considerado violento e que por isso exige a utilização de capacetes. A estatística também se aproxima do hóquei, que, da mesma maneira, tem a proteção à cabeça como item obrigatório.
E a freqüência das ocorrências são apenas um dos pontos que pedem uma melhor avaliação do futebol em relação à saúde cerebral dos atletas. Segundo o professor Paul McCrory, editor da revista inglesa British Medical, choques contra a cabeça de um oponente provocam aceleração até seis vezes maior no cérebro do que o cabeceio na bola e são capazes de causar lesões cerebrais.
Em 2002, uma notícia aumentou os questionamentos à associação entre a cabeça e o futebol. Aos 59 anos, o atacante Jeff Astle, tido por muitos como um dos maiores centroavantes já nascidos em território inglês, faleceu por lesão cerebral. No laudo de sua morte, o problema foi ligado a pequenas lesões no cérebro que Astle agravou ao longo de sua carreira como futebolista. Em outras palavras, o exame quis dizer que o corriqueiro ato de cabecear a bola pode causar sérios danos aos esportistas.
Antes mesmo do caso de Astle, diversos estudos já condenavam a utilização da cabeça no futebol. Em 1992, 33 ex-jogadores da seleção norueguesa foram avaliados por meio de tomografias. Os resultados foram alarmantes: os atletas profissionais, acostumados ou não ao cabeceio, têm mais problemas cerebrais do que as pessoas que não praticam o esporte. Para piorar, em 1/3 dos casos foi detectada atrofia da porção central do cérebro.
Na Holanda, em 1999, outro exame aumentou a apreensão. Futebolistas e não-praticantes foram convidados a realizar testes de habilidade no planejamento, velocidade de raciocínio e capacidade de atenção. Somente 13% do grupo sem atletas tiveram baixo desempenho em raciocínio, contrastando com o assustador número de 39% dos esportistas – ou seja, o triplo do apresentado entre os “normais”.
Em meio à revelação dos riscos, até o emergente futebol feminino merece mais atenção no caso. De acordo com o professor Scott Delaney, especialista em medicina esportiva da Universidade de McGill, do Canadá, as mulheres geralmente tem os músculos do pescoço menos desenvolvidos que os homens. Com isso, a absorção do choque entre bola e cabeça é menor e o risco de problemas é consideravelmente ampliado.
Capacetes são a solução?
Deparados com a periculosidade que o futebol traz ao cérebro de seus praticantes, a reação imediata de muitos especialistas é pela utilização de capacetes. O próprio Delaney realizou na Universidade de McGill um teste em jogadores com idade entre 12 e 17 anos para testar a eficiência do acessório durante a temporada de 2006. O diagnóstico foi de que 52,8% dos que atuaram sem a proteção tiveram concussões, enquanto apenas 26,9% dos que usavam capacetes apresentaram a mesma ocorrência.
A adoção do capacete, no entanto, pode não trazer somente boas conseqüências ao futebol. Quem já assistiu a um jogo de futebol americano ou de hóquei conhece a violência que caracteriza os esportes, e muitos atribuem isso ao excesso de equipamentos de segurança – a “certeza” de estarem a salvo de grandes contusões tiraria o medo dos atletas em optar por jogadas mais ríspidas. Este fato, transportado aos campos de futebol, aumentaria ainda mais as críticas ao desempenho atual, que para muitos já está distante do “futebol-arte” de outrora.
Scott Delaney, contudo, avisa que a sua pesquisa não registrou mais ferimentos entre os que não usavam esse capacete. O argumento, porém, é visto como questionável, já que o estudo do canadense envolveu apenas jogadores da categoria de base de uma universidade, que, tradicionalmente, não apresentam em campo o mesmo ímpeto dos profissionais, que tem no esporte a única forma de ganhar a vida.

Uso de capacete no futebol: solução ou mais problemas?
Além disso, o capacete tem como obstáculo o “conservadorismo” do futebol. Apesar da Fifa permitir o uso do item – há alguns meses, o goleiro Cech, do Chelsea, atuava com uma proteção na cabeça por ter tido sério problema na região alguns meses antes –, é difícil se imaginar 22 jogadores entrando em campo como no hóquei.
Por isso, a principal (e talvez única) conseqüência que os números podem trazer é a melhor preparação dos médicos em atender casos como os de Ferreira, Kleber e Carlão. E resta a espectadores, dirigentes e famílias torcer para que o jogador não seja vítima dos perigos de uma das jogadas mais praticadas e admiradas no futebol.






Muito bom o texto, mas vc teria como me informar da velocidade do cabeceio??
OBRIGADA
Não tenho esse dado e ainda depende de muitas variantes.