O Dopping tecnológico
Este é um capítulo complexo que envolve todas as formas de dopagem que não sejam aquelas por substâncias proibidas pelas regulamentações nacionais e internacionais. Geralmente, envolvem recursos utilizados com o fim de levar vantagem desonesta ou de acarretar extrema desvantagem ao adversário.
Aqui estão recursos tecnológicos, bioquímicos, psicológicos e outras técnicas de trapaça à ética desportiva. Não há uma classificação ou uma relação do que é proibido. Mas toda trapaça deliberada tem que ser punida severamente em nome da ética desportiva. Em muitos casos, a comprovação é difícil. Mas existem técnicas psicológicas como a hipnose em que não há um consenso sobre se lícita ou não.
1) Dopagem Bioquímica: autohemotransflusão
Já foi um procedimento muito usado. Consiste em se retirar de 0,5 a1 litro de sangue, trinta dias antes da competição e reinjetá-lo na véspera. Qualquer organismo fabrica nesses trinta dias a quantidade de sangue que foi retirada. A devolução do sangue à circulação significa que o atleta irá competir com uma quantidade adicional de sangue e, portanto de glóbulos vermelhos, em última análise de oxigênio com conseqüente vantagem na capacidade aeróbica. O sangue é guardado numa temperatura de 4o C e sua inoculação é feita com um cateter porque ele fica muito denso. É evidente o perigo de morte por embolia. Foi o que aconteceu com Luck Derick em 1991. Ele era jogador de futebol do Bruges, da Bélgica e o médico que realizou a autohemotransfusão havia sido seu companheiro na mesma equipe. Esse caso, as dificuldades de guarda do material, o risco de contaminação do sangue, dentre outros fatores contribuíram para o abandono dessa técnica.
2) Dopagem física: estimulação por eletrodos
Esta é uma técnica que não se pode provar que foi feita, mas aos atletas se recomenda que não se submetam a ela. Consiste em colocação de eletrodos nas inserções tendinosas de um músculo ou de um grupo de músculos, seguida de impulsos elétricos superiores a 50 volts. A violenta contração isométrica que se segue permite hipertrofias musculares muito rapidamente, mas o risco de ruturas musculares graves e principlamente tendinosas é extremamente alto. Este método foi muito usado na ex-União Soviética.
3) Fraudes tecnológicas
O esgrimista russo Boris Onischenko, nos J.O. de 1972, usou um minúsculo engenho eletrônico na empunhadura da sua espada, que marcava toques no seu adversário, que não existiam. Foi expulso dos Jogos e punido por atitude antiesportiva pela Federação Internacional de Esgrima.
Anos atrás, quando as corridas de automobilismo ainda não tinham as rigorosas inspeções das máquinas como hoje, sabe-se de casos em que as equipes usavam um reservatório de água abaixo do chassis tornando o carro mais pesado e dentro dos limites da pesagem. Dada a largada, o piloto acionava um pequeno dispositivo e a água era expelida fazendo com que o carro ficasse mais leve por todo o resto da prova.
4) Gestação programada
Esta manobra também está abandonada, mas foi muito utilizada entre as décadas de 60 e 80, mais difundida nos países do leste europeu. A inoculação de espermatozóides era feita em laboratório aproximadamente três meses antes da prova principal, fazendo com que a atleta competisse no terceiro mês de gestação, aproveitando-se do fato de que havia um aumento da quantidade de glóbulos vermelhos. Depois da competição era feito o aborto já programado. O COI chegou a pensar em proibir a competição de mulheres grávidas, mas recuou porque com isso estaria se intrometendo na programação familiar em mulheres que não tentavam com a gravidez obter vantagens esportivas.
5) Outras Trapaças
Nos regimes comunistas era comum em nadadores a inoculação de ar pelo ânus imediatamente antes das provas para facilitar a flutuação na água. Em muitos países não comunistas, esta trapaça também foi usada e hoje é técnica abandonada, pelo incômodo abdominal e pelas novas técnicas nos treinamentos de natação.
Na década de 80, em competição de atletismo na Costa Rica, uma menina acometida de hepatite foi substituída por sua irmã gêmea que chegou em segundo lugar na prova. Descoberta a fraude, foram suspensas de qualquer competição por toda a vida, muito mais numa punição moral e educativa.
No futebol e no basquetebol, são vários os fatos conhecidos de pequenos aumentos ou diminuições nas dimensões entre as traves e nos aros. Na década de 80, em decisão do campeonato americano universitário, o técnico local diminuiu em apenas um centímetro o diâmetro de um dos aros, mudando suas táticas de arremesso conforme atacava para este ou aquele aro. Venceu o jogo, depois com resultado anulado pela Liga e recebeu uma suspensão perpétua para trabalhar com o basquetebol.
6) Manipulação do material de coleta
Esta é uma trapaça que tem sido combatida com muito rigor por todas as entidades desportivas. A pena máxima de suspensão tem sido aplicada. O que os atletas fazem com mais freqüência é a adição à urina, de saliva, cerveja e uísque. As alterações do pH são tão evidentes que é fácil a identificação da fraude. Sabe-se que muitos atletas usaram frascos plásticos com urina de outra pessoa, presos na axila e um tubo plástico chegava até o pênis onde era preso com uma fita transparente; o atleta que informava sua incapacidade de micção, esperava o cansaço ou o descuido do médico coletor para através de uma simples manobra, ceder a urina que não era sua. Pior ainda e de uma maneira antifisiológica muito perigosa, o atleta urinava em seu vestiário e depois lhe passavam um cateter pela uretra para receber urina de outra pessoa e depois simular uma micção normal no ato de coleta. Por isso, todas as deliberações atuais, solicitam que as salas de coleta sejam amplas (para se evitar a troca de frascos de coleta), que não se permita o ingresso na sala além dos atletas e seus médicos e que os atletas estejam praticamente nus no momento de ceder a urina.



