Evolução física é o segredo da Seleção Feminina
Com talento natural, brasileiras atingiram feitos e resultados históricos graças ao trabalho desenvolvido na preparação física
Jornalista responsável Osmar de Oliveira / William Correia

Medalha de prata nas Olimpíadas de Atenas, em 2004, campeã Pan-americana no Rio de Janeiro de forma invicta, sem tomar gol e aplicando goleadas em todos os jogos, além de conquistar recentemente o vice-campeonato mundial. Nos últimos três anos, a Seleção Brasileira Feminina de Futebol tem atingido feitos grandiosos mesmo comparados às conquistas mais recentes dos homens. E o segredo para atingir este patamar, além do talento de jogadoras como Marta, está em um fator pouco comentado dentre as mulheres futebolista no Brasil: a preparação física.
Do ponto de vista esportivo, as vitórias desta geração ultrapassam o simples fim do preconceito em relação a garotas praticando futebol. A adaptação das atletas para atingir um nível competitivo, antes vista apenas nas potências européias e nos Estados Unidos, provou que o organismo feminino pode suportar a forte carga exigida em uma partida de futebol profissional. E a maneira com que o Brasil marcava e fazia gols nas adversárias demonstrou o forte poderio físico da equipe, encerrando definitivamente o tabu de que somente o sexo masculino tem essa aptidão para o esporte.
As próprias jogadoras admitem a superioridade brasileira em relação aos outros times. “Nossa equipe era a melhor preparada fisicamente no Mundial na China”, avalia a meia Daniela Alves. E a comprovação do argumento da camisa 7 está nos números da seleção canarinho durante o torneio na Ásia: dos 17 gols marcados, 15 ocorreram no segundo tempo – ou seja, mais de 88% dos tentos foram assinalados nos últimos 45 minutos.
A estatística demonstra que o Brasil se mantinha durante toda a partida em um forte ritmo dificilmente acompanhado pelas suas oponentes. A grande prova desta tese ocorreu nas quartas-de-final, quando as garotas bateram a Austrália por 3 a 2 (haviam cedido o empate após estarem vencendo por 2 a 0) com o gol da vitória marcado aos 30 da etapa final por Cristiane.
“Estávamos nos sentindo muito bem. Eu ia para cima e sentia que elas estavam cansadas no final. Se o jogo terminasse empatado, iria direto para os pênaltis. Mas se tivesse prorrogação estava me sentindo bem para jogar mais 30 minutos”, comentou Marta ao deixar o gramado após o triunfo sobre as australianas.
O que se viu nos campos cariocas e chineses, no entanto, faz parte de um trabalho comandado pelo preparador físico Jairo Porto. Após a conscientização das jogadoras de que Alemanha e EUA eram fortes por apostarem no desempenho atlético, Porto iniciou um método que contava inclusive com a força de vontade das brasileiras para driblar a falta de campeonatos nacionais na categoria.
“Não havia continuidade no trabalho. Às vezes, elas ficavam três semanas longe da Seleção e era o suficiente para que tudo que tinha sido feito fosse perdido. Por isso, elas têm um mérito muito grande neste processo porque entenderam a importância do trabalho. Qualquer equipe pode ter o melhor preparador do mundo, mas se os jogadores não quiserem, não adianta. E elas abraçaram a idéia”, elogiou o preparador
Segundo o membro da comissão técnica, o primeiro passo foi fortalecer a musculatura das atletas. “A Seleção Brasileira tinha uma média de peso menor do que as outras equipes. Tentamos diminuir isso. Fizemos um trabalho de ganho de força com correção no desequilíbrio muscular”, explicou. Como resultado, nos testes de resistência à velocidade, por exemplo, jogadoras como Pretinha atingiram índices como 0,16s, invejável inclusive para astros do atletismo.
Os músculos e o tabu
Desde o início do futebol feminino no Brasil, era comum ouvir que era preciso tomar cuidado com o processo de ganho muscular das meninas para não “deformá-las”. Hoje, porém, o preparo físico é visto como um dos trunfos para as recentes campanhas. E Marta, eleita melhor jogadora do mundo em 2006 e que terminou o Mundial da China como principal destaque e artilheira, é citada como exemplo desta mudança. “A Marta é uma atleta. Esteve na minha casa e eu fiquei impressionado. Falei para ela: ‘Caramba, você é forte para mais de metro, hein?’”, disse Vanderlei Luxemburgo, técnico do Santos.
Contudo, assim como no futebol masculino, existe entre as mulheres a preocupação de não transformar as jogadoras em atletas excessivamente musculosas, a ponto de prejudicar o seu talento com a bola. Neste caso, mais uma vez, a talentosa camisa 10 verde-amarela vira modelo de trabalho bem feito. “A Marta tem uma velocidade enorme. Nós explorávamos muito os lançamentos logos para ela, porque com o drible ela definia a jogada também”, revelou Daniela Alves.
Evolução física é o segredo da Seleção Feminina
Com talento natural, brasileiras atingiram feitos e resultados históricos graças ao trabalho desenvolvido na preparação física
Jornalista responsável Osmar de Oliveira / William Correia
Medalha de prata nas Olimpíadas de Atenas, em 2004, campeã Pan-americana no Rio de Janeiro de forma invicta, sem tomar gol e aplicando goleadas em todos os jogos, além de conquistar recentemente o vice-campeonato mundial. Nos últimos três anos, a Seleção Brasileira Feminina de Futebol tem atingido feitos grandiosos mesmo comparados às conquistas mais recentes dos homens. E o segredo para atingir este patamar, além do talento de jogadoras como Marta, está em um fator pouco comentado dentre as mulheres futebolista no Brasil: a preparação física.
Do ponto de vista esportivo, as vitórias desta geração ultrapassam o simples fim do preconceito em relação a garotas praticando futebol. A adaptação das atletas para atingir um nível competitivo, antes vista apenas nas potências européias e nos Estados Unidos, provou que o organismo feminino pode suportar a forte carga exigida em uma partida de futebol profissional. E a maneira com que o Brasil marcava e fazia gols nas adversárias demonstrou o forte poderio físico da equipe, encerrando definitivamente o tabu de que somente o sexo masculino tem essa aptidão para o esporte.
As próprias jogadoras admitem a superioridade brasileira em relação aos outros times. “Nossa equipe era a melhor preparada fisicamente no Mundial na China”, avalia a meia Daniela Alves. E a comprovação do argumento da camisa 7 está nos números da seleção canarinho durante o torneio na Ásia: dos 17 gols marcados, 15 ocorreram no segundo tempo – ou seja, mais de 88% dos tentos foram assinalados nos últimos 45 minutos.
A estatística demonstra que o Brasil se mantinha durante toda a partida em um forte ritmo dificilmente acompanhado pelas suas oponentes. A grande prova desta tese ocorreu nas quartas-de-final, quando as garotas bateram a Austrália por 3 a 2 (haviam cedido o empate após estarem vencendo por 2 a 0) com o gol da vitória marcado aos 30 da etapa final por Cristiane.
“Estávamos nos sentindo muito bem. Eu ia para cima e sentia que elas estavam cansadas no final. Se o jogo terminasse empatado, iria direto para os pênaltis. Mas se tivesse prorrogação estava me sentindo bem para jogar mais 30 minutos”, comentou Marta ao deixar o gramado após o triunfo sobre as australianas.
O que se viu nos campos cariocas e chineses, no entanto, faz parte de um trabalho comandado pelo preparador físico Jairo Porto. Após a conscientização das jogadoras de que Alemanha e EUA eram fortes por apostarem no desempenho atlético, Porto iniciou um método que contava inclusive com a força de vontade das brasileiras para driblar a falta de campeonatos nacionais na categoria.
“Não havia continuidade no trabalho. Às vezes, elas ficavam três semanas longe da Seleção e era o suficiente para que tudo que tinha sido feito fosse perdido. Por isso, elas têm um mérito muito grande neste processo porque entenderam a importância do trabalho. Qualquer equipe pode ter o melhor preparador do mundo, mas se os jogadores não quiserem, não adianta. E elas abraçaram a idéia”, elogiou o preparador
Segundo o membro da comissão técnica, o primeiro passo foi fortalecer a musculatura das atletas. “A Seleção Brasileira tinha uma média de peso menor do que as outras equipes. Tentamos diminuir isso. Fizemos um trabalho de ganho de força com correção no desequilíbrio muscular”, explicou. Como resultado, nos testes de resistência à velocidade, por exemplo, jogadoras como Pretinha atingiram índices como 0,16s, invejável inclusive para astros do atletismo.
Os músculos e o tabu
Desde o início do futebol feminino no Brasil, era comum ouvir que era preciso tomar cuidado com o processo de ganho muscular das meninas para não “deformá-las”. Hoje, porém, o preparo físico é visto como um dos trunfos para as recentes campanhas. E Marta, eleita melhor jogadora do mundo em 2006 e que terminou o Mundial da China como principal destaque e artilheira, é citada como exemplo desta mudança. “A Marta é uma atleta. Esteve na minha casa e eu fiquei impressionado. Falei para ela: ‘Caramba, você é forte para mais de metro, hein?’”, disse Vanderlei Luxemburgo, técnico do Santos.
Contudo, assim como no futebol masculino, existe entre as mulheres a preocupação de não transformar as jogadoras em atletas excessivamente musculosas, a ponto de prejudicar o seu talento com a bola. Neste caso, mais uma vez, a talentosa camisa 10 verde-amarela vira modelo de trabalho bem feito. “A Marta tem uma velocidade enorme. Nós explorávamos muito os lançamentos logos para ela, porque com o drible ela definia a jogada também”, revelou Daniela Alves.

Marta se preparando para chutar em gol: preparo físico invejável
Em comentários como este, fica perceptível a relação da evolução física da Seleção com o trabalho de Jairo Porto. Entretanto, um nome é unânime entre técnicos do futebol feminino e masculino para apontar o verdadeiro responsável pelos feitos das meninas: Renê Simões, comandante que levou as brasileiras ao segundo lugar nos Jogos Olímpicos de Atenas.
“Para mim, o responsável por esse novo panorama do futebol feminino é o Renê. Ele implementou uma necessidade de postura tática e física que ainda não havia na Seleção. Antes, as jogadoras não tinham essa organização em campo que tem hoje”, apontou Luxemburgo, que conta com a concordância de Daniela Alves. “O Brasil sempre chegou, assustou, soube jogar. Mas o Renê nos direcionou para o melhor caminho”, falou a meia.
Adaptação das regras
Mesmo diante dos elogios à preparação física brasileira e a constatação de que alemãs e norte-americanas são bicampeãs mundiais por apostarem no quesito, ainda há na mídia esportiva mundial um coro para que as regras do futebol sejam adaptadas às mulheres. Com base no regulamento do vôlei, que prevê que a rede no esporte feminino esteja colocada a uma altura 19 centímetros mais baixa comparada aos homens, alguns jornalistas pedem para que tanto o gol como o campo sejam diminuídos.
Tanto no esporte masculino como no feminino, parece não haver dúvidas de que o físico masculino leva vantagem. “O homem por natureza é mais forte, fisicamente falando, do que as mulheres. No esporte conseguimos ver claramente isso, avaliando os recordes e marcas de uma mesma modalidade. Vamos pegar como exemplo a natação: o recorde de 100 metros Nado Livre Masculino pertence ao holandês Pieter Van Den Hoogenband, com o tempo de 47.84 segundos. O feminino da mesma modalidade pertence à Britta Steffen, da Hungria, com o tempo de 53.30 segundos. Uma diferença de quase 6 segundos que, nos padrões da natação competitiva, é uma eternidade”, analisa o professor de Educação Física Rodrigo Correia da Motta.
E os argumentos se tornam válidos mesmo entre profissionais do futebol. “As meninas não tem o mesmo preparo físico que os homens”, sentencia Luxemburgo. “Sem dúvida é desproporcional”, completa Daniel Alves.
Entretanto, se em outros esportes e no próprio futebol já se percebe essa diferença entre homens e mulheres, as futebolistas ainda contam com adaptações aos seus padrões físicos. Essa questão, no entanto, tem uma explicação segundo Rodrigo Correia da Motta. ”Em esportes onde os resultados são avaliados por tempo (natação, atletismo), metragens (salto em altura, salto em distância), peso (halterofilismo), entre outros, a comparação entre os sexos é muito mais fácil. Já no futebol não existe uma base de comparação evidente ou exata como os esportes citados acima, devido ao esforço e o desempenho dos atletas durante uma partida ser muito subjetivo”.
Mais do que a invalidade destes dados comparativos, questões culturais também pesam contra a implementação de regras diferentes às mulheres. “O futebol sempre foi um esporte machista, isso está enraizado dentro da cultura de países que o praticam: ‘Futebol é coisa para homem’, diz o ditado popular. Como nunca foi se dado o devido valor ao futebol feminino, uma adaptação das regras era algo irrelevante, é como se as mulheres nunca fossem praticar o futebol de forma profissional”, comenta Rodrigo da Motta.
Porém, contrariando as expectativas, Daniela Alves credita a derrota para a Alemanha na final da Copa do Mundo exatamente pelo fato de a partida ter sido disputada em uma arena com dimensões menores que as outras. “O campo foi o menor que jogamos no Mundial. Isso dificultou muito nosso jogo, ainda mais com as alemãs atuando de forma compacta”, relembrou Daniela. Curiosamente, o Shanghai Hongkou Football Stadium, palco da decisão, conta com as medidas 105 m x 68 m, exatamente o tamanho considerado ideal pela Fifa em jogos de Copa do Mundo masculina.

Seleção brasileira vice campeã mundial: a espera de uma melhor condição
Diante destes comentários, o que se pode concluir é que a Seleção Brasileira, assim como todos os outros times de grande nível do futebol feminino mundial, tem claras condições de encarar uma partida completa em um ritmo atlético invejável inclusive para os homens. Com isso, fica a impressão de que novidades no esporte somente travariam (ou atrasariam) o desenvolvimento natural do futebol entre as mulheres.



