Mortes no esporte: tragédias que podem ser evitadas com avaliações
Participaram da matéria: Dr. Nabil Ghorayeb (cardiologista) , Dr. Murillo Antunes (cardiologista). Jornalista responsável Osmar de Oliveira / William Correia Ilustração por Rodrigo Motta

No último dia 25 de agosto, o mundo do futebol virava os seus olhos para a Espanha. O motivo era o início do campeonato nacional naquele país, e um dos destaques foi o jogo entre Sevilla e Getafe, em Sevilha. No entanto, a goleada de virada por 4 a 1 dos mandantes foi o assunto menos abordado na partida. Aos 35 minutos do primeiro tempo, o lateral-esquerdo Antonio Puerta, de 22 anos, desmaiou devido a uma parada cardiorrespiratória, e teve a morte confirmada três dias depois.
Infelizmente, o jovem camisa 16 do Sevilla abriu dias que mancharam a história do esporte. Depois do espanhol, outros oito jogadores profissionais faleceram na mesma semana de maneira similar em diversas partes do mundo, como Israel e Equador. Os acontecimentos acenderam o alerta entre esportistas, imprensa, clubes e médicos, já que os óbitos por problemas cardíacos no futebol não são mais novidade.
Desde 2003, quando o camaronês Marc-Vivien Foe caiu no gramado do Stade de Gerland, na França, durante disputa da Copa das Confederações pela sua nação, muito se falou sobre como evitar essas tristes notícias. Contudo, pouco mais de quatro anos depois, muitos atletas se foram, como o zagueiro Serginho, do São Caetano, em 2004, e as mortes se acumulam.

- Mac-Vivien Foe morreu em Junho de 2003
A solução para diminuir esse problema, entretanto, continua a mesma. Sempre que perguntados sobre o assunto, cardiologistas não hesitam em responder com uma boa avaliação do coração dos esportistas antes dos exercícios físicos é fundamental para diminuir os riscos. O doutor Nabil Ghorayeb, cardiologista e também especialista em medicina no esporte, iniciou esse coro.
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“O esporte não mata, o que mata são doenças não diagnosticadas ou desvalorizadas. A falta de controle de qualidade dos exames acaba levando ao risco. Existe o alerta, mas as pessoas nunca levam em conta. Muitos pensam ‘é o outro que vai ter, não eu”, alertou Ghorayeb.
E o pedido por esses exames também assusta por um suposto descaso das autoridades esportivas nos clubes e federações quanto aos problemas que os jogadores apresentam durante os treinamentos. No dia da morte de Puerta, o brasileiro Luis Fabiano, companheiro do lateral no Sevilla, confirmou que o colega já havia tido dois desmaios e nada foi feito. Assim como no caso de Serginho, o desfecho com Puerta poderia ter sido mais feliz se os diretores espanhóis tivessem atuado de maneira diferente.
“Há muitas lições na morte do Puerta. Ele não havia feito exames competentes. Teve dois desmaios e isso deveria ser altamente valorizado. Qualquer atleta que apresentar sintomas desse tipo deve ser afastado até estarmos certos sobre a situação do seu coração”, comentou Ghorayeb, que compara o caso do espanhol com o do atacante William, do Palmeiras, que esteve sob seus cuidados e ficou dois anos fora do futebol para se tratar. Hoje, o palmeirense atua normalmente.

- Jogadores auxiliam Antonio Puerta, durante o trágico episódio.
Murillo Antunes, cardiologista da Clinica Dr. Osmar de Oliveira, reforça os pedidos de Ghorayeb e atenta que desmaios não são os únicos agravantes que podem representar riscos aos atletas. “Um bom relato do passado e presente do jogador são sintomas importantes. A história de familiares de primeiro grau com morte súbita abaixo de 40 anos, dores no peito e palpitações também merecem atenção especial”, apontou.
Antunes também explica que nem sempre as intervenções cirúrgicas podem servir como solução para problemas cardíacos, principalmente se o objetivo for fazer com que o esportista volte a atuar. “Nas principais doenças responsáveis pela morte súbita no atleta, nos estágios avançados, podem ser realizados cirurgias paliativas para aliviar os sintomas quando refratárias ao uso de medicações, mas isto não permite a liberação para do atleta para a atividade física. Apenas em alguns casos, como realização de angioplastias em certos vasos do coração, pode se liberar para cirurgia”, esclareceu.
Números preocupantes
O falecimento de Puerta, ao lado dos outros oito óbitos que ocorreram no futebol entre 26 de agosto e 1º de setembro, apenas corroboram uma triste estatística: em média 29 mortes relacionadas ao esporte ocorrem anualmente. Em 2007, 15 já se foram.
“É uma tristeza que serve de alerta. As pessoas devem ter um cuidado maior. A parada cardíaca é o caminho final de todas as doenças. Cerca de 90% das mortes súbitas (como a de Puerta) são causadas por doenças cardiovasculares”, apontou Ghorayeb.
E o cardiologista também chamou a atenção para os atendimentos de emergência. Quando Serginho faleceu, muitos culparam a equipe que prestou os serviços ao zagueiro pelo falecimento. Na verdade, não havia experiência e maior preocupação com esses tipos de acontecimentos No caso de Puerta, o lateral se recuperou ainda em campo e seguiu para os vestiários caminhando. Ghorayeb, porém, ficou surpreso com o atendimento prestado ao jogador do Sevilla, pois o teria feito de modo bem diferente.
“O atendimento ao Puerta foi feito de modo não habitual. Ele teve uma parada cardíaca de segundos. Quando se recuperou, deveria ter sido mantido deitado e com balão de oxigênio, e transportado de maca com o coração monitorado. O fato de ele sair andando foi inadequado e não ajudou a salvá-lo”, sentenciou o médico.
Situação no Brasil
Falhas como as apresentadas pelos espanhóis felizmente já não são tão comuns no futebol do Brasil. Desde o falecimento de Serginho, aumentou a presença de desfibriladores e equipes treinadas nos campos. Com isso, Ghorayeb compara a cardiologia brasileira no esporte a Itália e Alemanha, onde a avaliação pré-participação é obrigatória.
“Certamente, pelo menos em São Paulo, estamos no mesmo nível deles. Nas outras cidades, há muita troca de informações e de questionamentos, e isso é positivo. Muitos países não ligam muito para isso ainda”, contou.
A morte do zagueiro do São Caetano fez com que muitos clubes olhassem com mais atenção as avaliações de seus atletas, e principalmente as grandes agremiações tem procurado com mais intensidade esses cuidados. Os elogios de Ghorayeb, no entanto, não
eliminam as críticas quanto à qualidade das análises.
“Nos últimos anos, muitos jogadores foram afastados por uma avaliação precária. Quem havia feito a análise não era cardiologista ou não tinha experiência. Muitos confundiram o “coração de atleta”, que é uma adaptação, com doença cardíaca. No Sertãozinho, na Inter de Limeira e em outros times do interior reintegramos muitos. Mas também houve casos em que aprovamos o afastamento e tratamos de forma mais dura”, relatou o cardiologista.
Murillo Antunes também confirma que a procura inclusive de esportistas amadores por essas análises pré-atividades físicas cresceu após os acontecimentos nos últimos anos. “As mortes ocorridas em grandes atletas e com a grande cobertura da mídia gerou um aumento na procura de avaliações físicas especializadas”, contou o cardiologista.
Entretanto, Ghorayeb garante que a preocupação com problemas cardiovasculares no futebol brasileiro não é recente. “Fazemos esse trabalho há muitos anos. Lembro que um dos primeiros médicos a nos trazer atletas para avaliações foi o Dr. Osmar de Oliveira, nos anos 70. Com certeza, ele acabou por nos incentivar a manter a novidade da ocasião, dos exames completos para atletas”.
A chance de não poder mais atuar é um dos maiores medos dos atletas antes de realizar os exames. Dr. Antunes, contudo, enumera as possibilidades de continuar fazendo exercícios físicos com menores exigências. “Em alguns casos, os pacientes poderiam realizar atividades aeróbicas corridas, bicicletas com leve grau de intensidade, golfe e boliche. Mas tudo deve ser orientado por um médico especialista”, ponderou o médico.
Para exemplificar as possibilidades de o esportista ser feliz mesmo longe do esporte, Ghorayeb conta o caso de um antigo paciente seu. “Há 15 anos, um garoto de 19 anos do Cruzeiro, chamado Weuler, teve um desmaio e foi afastado. Nunca mais voltou ao futebol, mas está vivo e trabalhando feliz da vida em Belo Horizonte”, relembra.
Assim como em toda atividade humana, o futebol e o esporte em geral não estão a salvo de tragédias como as de Puerta, Serginho, Foe e muitos outros que faleceram exercendo sua profissão. Contudo, uma maior atenção de dirigentes pode diminuir consideravelmente os riscos de morte. O que especialistas, familiares e torcedores pedem é que os clubes façam uma de suas obrigações: cuidar de seus atletas, que são seus patrimônios e os grandes astros do esporte.


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